quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Para Viagem

Há muito tempo tinha deixado de lado o hábito de jantar. Passou a fazer lanches rápidos sentada no sofá. Em frente a TV. A mesa, destinada à refeições em outras épocas, hoje em dia não passava de um aparador. Nem cadeiras tinha.

Também tinha esquecido o prazer de receber amigos em casa. Sua solidão era a companheira de todas as noites dentro da sua bolha. Toda louça, talheres e copos especiais estavam guardados, num armário, bem no alto e, provavelmente, cheios de poeira.

Mas aquela terça-feira seria diferente. Receberia a visita de uma amiga de infância que não havia feito parte dos últimos 20 anos da sua vida. Resolveu que faria em grande estilo, dentro do possível.

Improvisou duas cadeiras e começou a preparar o cenário. Foi até o armário de roupa de cama, onde achava que poderia encontrar uma toalha de mesa que chamasse a atenção de sua visita, mesmo não sabendo exatamente qual seria o gosto daquela pessoa que havia se tornado uma estranha.

Deu de cara com uma toalha branca, redonda, com bordados richelieu. Era ela mesmo! Vistosa. Presente de enxoval da ex-sogra.

Se posicionou e estendeu a toalha sobre o tampo de vidro da mesa. E dali, daquele ângulo, viu a sua casa de um ponto que nunca tinha visto. Ficou estática observando, congelada. Começou uma viagem no tempo.

As paredes estavam vazias. Tinha tirado os quadros e só restaram os pregos. A sombra da luminária deixava um pedaço da sala malhado. Livros, alguns lidos e outros tantos ainda por ler. O tapete, pequeno para o tamanho da sala. Os sofás antigos mas bem conservados, com almofadas que tinham ser trocadas. A televisão de 29 polegadas, ligada no Jornal Nacional.

Na estante, objetos cheios de história. Um porta-retrato com uma foto da mãe. A coleção de rolhas, todas com as devidas anotações de datas e ocasiões. Os livros de arte que ganhou de presente de uma tia, na época em que se arriscava com os pincéis. O arranjo de mesa da festa do seu casamento. Uma garrafa azul que trouxe da Espanha. Um baleiro antigo, vazio, um vaso de porcelana chinês, ambos presentes de casamento. Um presente do ex-marido, outro do ex-namorado. Um pássaro de madeira que quase quebrou na mala na volta da viagem de Portugal. Velas bastante choradas em ocasiões inesquecíveis. O galo que trouxe do Chile, a boneca do Japão, o pedacinho do muro de Berlim, lembranças de muitas viagens, algumas acompanhada, a maioria sozinha.

O interfone tocou. O Jornal Nacional acabou. E ela não descongelou. Algum tempo se passou, alguns minutos talvez, e ela percebeu que não queria mais reviver aquelas histórias. Tinha ânsia de escrever uma nova.

Pegou tudo da estante e colocou sobre a mesa. Com a toalha bordada fez uma trouxa e colocou tudo na lixeira. Exceto o porta-retrato.

E levou a amiga para jantar fora.

8 comentários:

UtópicA disse...

ADOREI!
Adorei ainda mais por ter sido em primeira mão!

Agora virei fã dos teus textos tbm.
bjs

Dgão disse...

Cada dia melhor....
Hats off 4 U.

Bjs

Dgão disse...

Cada dia melhor....
Hats off 4 U.

Bjs

Re disse...

Sabe que foi a melhor escolha?
Mas depois deste jantar, acho que ela voltou para casa, arrumou a sala, pregou os quadros na parede, começou a usar a louça boa para ela mesma e sentou na mesa mesmo que sozinha. Talvez tenha comprado um cachorro (eu teria comprado 2 ou escolhido em abrigo)... rs
beijos e lindo texto
Re

Pri... disse...

É preciso nos livramos do velho para abrir espaço para o novo. Acredito nisso sim. Que bom que ela pôde fazer isso e tocar a vida! :-) Novos objetos - agora com a "cara" dela - certamente virão. ;-)

isaBela araújo silvA disse...

uhu!!
senti um orgulho tão enorme de vc! fiquei imensamente feliz. é preciso deixar morrer pra poder nascer tantas outras, e lavar a louça depois ninguém merece! aposto que foi uma ótima pedida!

Pri... disse...

Carinho e brincadeira da blogosfera pra vc na data de hoje (19/02) lá no meu blog! :-)

João Vitor disse...

é bom voltar de vez em quando!
e continuar também!

http://joaovitors.blogspot.com/